Ela queria tanto.

Havia uma vez uma menina que passava pela mesma banca de fruta todas as tardes, a caminho de casa. E todas as tardes, andava devagar e olhava para ela, porque havia laranjas empilhadas umas em cima das outras. Daquelas bem vivas e bonitas, que ela tanto gostava.

Mas havia um problema maior do que simplesmente gostar delas, e era o facto de não ter dinheiro para comprar uma. Então passava devagar, a olhar para elas durante alguns segundos a mais do que provavelmente precisava, imaginando-se a descascar uma, a separar os pequenos gomos e a provar aquela primeira dentada doce.

Às vezes, metia a mão no bolso com uma pequena esperança, mesmo sabendo perfeitamente que não havia nada lá.

Dizia a si mesma: talvez amanhã. Mas numa tarde, havia uma moeda no seu bolso, que tinha sobrado do troco da mãe. E era suficiente para uma laranja.

Então segurou-a durante todo o caminho até à banca, o senhor entregou-lhe uma laranja e ela sorriu como se ele lhe tivesse entregado algo muito mais caro. Levou-a com cuidado, mas não a descascou logo. Queria primeiro encontrar um lugar onde se pudesse sentar. E quando finalmente encontrou, colocou o polegar debaixo da casca e começou lentamente a retirá-la, um pequeno salpico de sumo chegou-lhe aos dedos, e o cheiro ficou nas suas mãos. Um gomo, depois outro, e mais outro, comeu até ao último. E quando já não restava nada... levantou-se, olhou para as cascas ao seu lado e foi-se embora. Na manhã seguinte, aquilo que ela tinha passado tantas tardes a desejar estava caído à beira da estrada.

E acho que há algo dolorosamente familiar nisto nós não somos assim tão diferentes daquela menina.

Há coisas para as quais, um dia, olhámos do outro lado da vida e pensámos: Ya Allah, quem me dera ter isso. Vimos outras pessoas a tê-las, perguntámo-nos quando chegaria a nossa vez, fizemos dua, esperámos. Imaginámos o quão gratos seríamos se Allah simplesmente colocasse aquela coisa nas nossas mãos. “Ya Allah, permite que eu seja aceite, permite-me ter esta oportunidade, permite que eu recupere, dá-me pessoas que me amem, abre esta porta para mim.”

E depois, um dia...ele abriu. Segurámos aquela bênção com as duas mãos, sorríamos de maneira diferente no início, contámos às pessoas, dissemos Alhamdulillah com um coração que realmente entendia porque o estava a dizer. Mas depois? os dias passaram, os meses também, até alguns anos.

E algures entre receber a bênção e habituarmo-nos a ela...deixámos de olhar para ela da mesma forma que olhávamos quando ainda estava do outro lado da nossa dua. A oportunidade tornou-se stressante, a casa? tornou-se normal, a pessoa tornou-se familiar. O nosso corpo saudável tornou-se algo que esperávamos simplesmente ter ao acordar, os pais que ainda se sentam à nossa mesa tornaram-se pessoas que assumimos que amanhã também estarão lá sentadas. Aquilo que um dia desejámos desesperadamente... tornou-se normal.

E essa é uma das coisas mais estranhas sobre nós, porque às vezes Allah nem precisa de tirar uma bênção para nós a perdermos. Às vezes, perdemo-la enquanto ela ainda está nas nossas mãos...porque perdemos a capacidade de a ver como uma bênção.

Talvez a gratidão não seja apenas ficarmos felizes quando Allah finalmente nos dá a laranja, mas sim? lembrarmo-nos do quanto a queríamos depois de já a termos há algum tempo!

É olhar para uma terça-feira normal e lembrar que partes desta terça-feira normal já foram duas, olhar para a pessoa ao nosso lado e lembrar que houve um tempo em que não a tínhamos, andar sem dor e lembrar que, algures, alguém está a pedir a Allah exactamente isso, abrir os olhos de manhã e lembrar que mais um dia nunca foi algo que Allah nos devesse.

E talvez, de vez em quando, precisemos de voltar mentalmente a passar por aquela pequena banca de fruta, voltar à versão de nós mesmos que ainda não tinha aquilo que temos agora, voltar às duas, à espera, ao “Ya Allah, por favor.” Só para que, quando regressarmos às nossas vidas de agora, seguremos as coisas com um pouco mais de cuidado. Porque um dia, algumas das bênçãos que hoje chamamos normais tornar-se-ão memórias. Um dia, poderão mesmo restar apenas vestígios de algo que costumava estar nas nossas mãos.

E eu não quero que seja a ausência a primeira coisa a ensinar-me o valor daquilo que Allah me permitiu ter.

Por isso, a pergunta não é apenas: O que é que eu ainda estou à espera que Allah me dê? mas hoje também devo perguntar: O que é que Allah já me deu e eu deixei de reparar?

Unsaiid.Thoughts-byEyah

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Imagine receber um mapa de alguém que já completou a viagem.

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